Poluição Atmosférica e seus Efeitos sobre a Saúde Humana

Posted by Marcia Corrêa | Posted in Psicologia Ambiental | Posted on 16-10-2008-05-2008

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Hoje o texto é longo. Segunda-feira, dia 13 de outubro de 2008, assisti a um seminário no Teatro da Faculdade de Medicina da USP que discutia o estado atual do conhecimento científico relacionado à poluição atmosférica e seus efeitos sobre a saúde humana, e quero compartilhar essa experiência com vocês.

O Prof. Dr. Marcos Boulos, Diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) abriu o evento destacando o seu objetivo, que é formular políticas públicas sobre saúde e poluição atmosférica. Ele lamentou a ausência de representantes da Petrobrás e da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA) no evento, pois uma das discussões principais era sobre o “diesel limpo”, um combustível bem menos nocivo que já teve resolução aprovada pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) e já devia ter sido distribuído.

Em seguida, a Profa. Dra. Maria de Fátima Andrade, Meteorologista do Laboratório de Análise dos Processos Atmosféricos (LAPAT) do Departamento de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), apresentou uma palestra destacando as fontes emissoras responsáveis pela produção do aerossol atmosférico e ozônio na cidade de São Paulo. Há poluentes que tem regulamentação, como as partículas inaláveis e o ozônio, porém, outros gases do efeito estufa que afetam o ar são poluentes que não possuem regulamentação. A CETESB tem um sistema de monitoramento para avaliar a qualidade do ar, que permanece em boa parte do tempo como “REGULAR”. A palestrante destacou que já foi constatado uma redução significativa de SO2 e um decréscimo também no enxofre nas partículas finas (material particulado).

O palestrante seguinte foi o Prof. João Vicente de Assunção, coordenador do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), oriunda da FM-USP. Sua palestra abordou a concentração atmosférica de substâncias tóxicas não regulamentadas determinadas na Cidade de São Paulo, e apontou para os fatores de equivalência toxicológica, que possui 17 substâncias que seriam as mais preocupantes. Entre as fontes de dioxinas e furanos podemos destacas processos térmicos, incineração e queima de combustíveis. Também há fontes de emissão de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs). O professor também destacou a queda significativa da presença de enxofre no diesel, mas alertou para o fato de que atualmente o conteúdo de enxofre na gasolina também é alto.

Em seguida contamos com a apresentação do Prof. Dr. Eduardo Jorge Sobrinho, da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente da Prefeitura de São Paulo, que também lamentou a ausência dos demais representantes esperados no evento. Sua palestra foi sobre o instrumento de promoção de saúde pública. Ele destacou a polêmica sobre o uso de diesel mais limpo e as empresas mais importantes dessa área que são a Associação de Engenharia Automotiva (AEA), e as já citadas ANFAVEA e Petrobrás. Com a resolução do CONAMA, de 2002, as empresas são obrigadas a garantir de um diesel mais limpo. Um fato interessante destacado pelo palestrante foi a mudança da opinião pública em relação à inspeção dos veículos, após o acesso à informação. A prefeitura vai instalar seis postos este ano (todos diesel, por enquanto) para avaliar se os veículos estão regulares. A partir do ano que vem o mesmo ocorrerá para carros e motos. Antes a o população reprovava essa avaliação, pois só pensavam nos transtornos como o tempo que perderiam fazendo a avaliação, no entanto, com a divulgação da campanha de diesel mais limpo (os poluentes e os danos à saúde), a população passou a cobrar da prefeitura pela implementação desse serviço.

O Prof. Dr. Nelson Gouveia, do Departamento de Medicina Preventiva da FM-USP apresentou uma visão geral dos efeitos adversos da poluição sobre a saúde humana. Para ele já não cabe mais perguntar se a poluição faz mal a saúde, pois já existem estudos mais do que suficientes comprovando essa relação. As questões atuais são “quem são os mais vulneráveis?”, “os níveis atuais de poluição são seguros?” e “qual o custo-benefício para a saúde?”. O palestrante apresentou um estudo mundial: 90 cidades nos Estados Unidos, 15 cidades na Europa, 7 cidades na Ásia e 9 cidades na América Latina, entre elas três no Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Neste estudo foram destacadas que as doenças respiratórias e cardiovasculares são as mais diretamente ligadas à poluição atmosférica. O desafio é alcançar o padrão de qualidade do ar do relatório publicado pela Organização Mundial de Saúde. Segundo os estudos apresentados pelo palestrante, Belo Horizonte e Salvador são duas cidades brasileiras que já podem comemorar esse feito.

O Prof. Dr. Luiz Alberto Amador Pereira, docente da Universidade Católica de Santos e membro do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da FM-USP, falou da poluição atmosférica e saúde infantil e a Profa. Marisa sobre poluição atmosférica e saúde fetal e gestacional. Essas duas palestras destacaram estudos científicos experimentais sobre o efeito da poluição em fetos e crianças, comprovando o quanto a poluição atmosférica prejudica a saúde desde o início da vida, pois influencia no peso da criança ao nascer e em doenças posteriores como diabetes, hipertensão e doenças cardíacas, além do estresse.

Em seguida contamos com a palestra do Prof. Dr. Paulo Saldiva, do Departamento de Patologia da FM-USP, sobre efeitos cardíacos e respiratórios dos níveis urbanos de poluição atmosférica. Através de imagens mostrou o quanto a poluição atmosférica inflama o nariz e o desafio das vias aéras em manter parte significativa dos pulmões limpos, nos desafiando a deixar 100m2 de um espaço aberto limpo. A “fauna humana” não é conservada, para fazer uma estrada, que implica em degradar o meio ambiente, é preciso da autorização, mas para fazer uma avenida, dentro de uma cidade, não é necessário nenhum autorização, mas a saúde humana é degradada! Muitos estudos sobre causas de infarto falam da influência do trânsito das grandes cidades e questionam se o principal motivo seria a poluição ou o estresse e, ao contrário do que muita gente pensa, o principal fator é a poluição atmosférica. Mas já foi constatada a queda de poluição em São Paulo, principalmente de 1996 para cá, com um menor índice de mortalidade por exposição ao carvão, o que comprova que limpar o ar faz bem à saúde! Segundo o palestrante, falar hoje que a poluição não altera a saúde é a mesma coisa que dizer que a Terra é plana e não podemos mais aceitar isso.

Fatores sócio-econômicos como modificadores dos efeitos dos poluentes atmosféricos também foram abordados neste seminário, pela Profa. Dra. Cristina Haddad, da Secretaria de Saúde da Prefeitura de São Paulo. Ela é arquiteta e fez seu doutorado no Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da FM-USP, onde é colaboradora até hoje. Ela questiona se existe um grupo de risco, e se seria as pessoas de piores condições sócio-econômicas e foi constatada a vulnerabilidade relacionada à proximidade com ambientes mais poluidos. Por exemplo, no bairro Cerqueira Cesar não existe praticamente nenhuma vulnerabilidade, mas as pessoas que residem próximas à estações de metrô possuem mais doenças respiratórias, segundo um estudo com mortalidade de idosos de 2004.

A última palestrante do dia foi a Profa. Dra. Simone El Khouri Miraglia, do Centro Universitário SENAC, de São Paulo, onde leciona na graduação e na pós graduação. Ela também trabalha no Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da FM-USP e trouxe alguns dados sobre a valoração dos efeitos da poluição atmosférica. Ela destacou os impactos globais dos combustíveis fósseis na saúde pública e os custos diretos como gastos com internações, perda de produtividade no trabalho, mortalidade (e consequentemente o período perdido de produtividade) e danos a monumentos, edificações, plantas e vegetações. Ela também destacou que não podemos deixar de considerar os custos indiretos. Contudo fica destacada a importância dos investimentos relacionados ao controle da poluição, que, se não for pela saúde humana, então que seja pelos fatores econômicos, pois está constatado que poluir custa caro e investir em saúde é lucrativo para todos.

Espero que tenham apreciado o resumo deste evento que, ao meu ver, foi muito importante e por isso me vi no dever de divulgar o que foi discutido para que o debate continue. Aguardo seus comentários.